Sempre gostei de observar formigas. Enquanto o senhor Sinclair não se dignou em lançar o ZX Spectrum, observar formigas era um dos meus passatempos, não digo que preferidos, mas que finalizavam em beleza natural as sessões em que me deslocava sozinho ao campo de futebol com uma bola debaixo do braço, onde o objectivo era rematar à barra. Fazia tudo: rematava, ia buscar a bola e fazia o relato.
Dirigia-me às formigas depois de acertar duas vezes consecutivas na barra, ou quando começava a anoitecer. A fase de observação rapidamente passou a interacção. Que é como quem diz, “
ok, já sei como é que vocês fazem isso, é tudo muito lindo, mas não se perde nada se introduzirmos nas vossas vidas umas pequenas variáveis”. Colocava então obstáculos que as fazia desviar daquele trilho e as gajas deixavam momentaneamente de se parecer como um bando de betinhos em fila a caminho do colégio. Ou tossia-lhes para cima, entre outras maldades aqui irreproduzíveis.
As formigas são animais muito persistentes. Só uma mij… só uma catástrofe à sua dimensão as faz desistir do seu objectivo. Podem ficar desorientadas por alguns momentos, a tentar redesenhar um novo trilho, mas a coisa endireita-se rapidamente. Lidam é mal com líquidos, as coitadas.
Isto durou uns tempos, mesmo depois do senhor Sinclair nos brindar com o Spectrum – afinal, o brinquedo ainda era oficialmente da minha irmã. A
formigarização extrema dava-se quando visitava os meus avós, cujos humildes terrenos eram habitados por formigas gigantes ( imaginem um argelino, fanático da NBA, que ganha uma viagem para assistir ao vivo a um jogo no Madison Square Garden, e perceberão facilmente a minha alegria).
Um dia acabou. “
Oh filho, por que não vais brincar com os outros meninos…?”. Eu fui, e fumei o meu primeiro cigarro.
O que me fez reviver estes momentos, sem grande orgulho, diga-se, mas que repetiria, sem dúvida, foi um
link que apanhei a apontar para
este artigo – que podia muito bem ter sido escrito por mim, não me tivessem mandado brincar com outros meninos - e que nos diz que nas caminhadas de um formigueiro não existem engarrafamentos, nem mesmo quando a densidade aumenta! O artigo arrasta-se depois para uma vertente utópica, onde se tentam juntar físicos, matemáticos e…
traffic scientists (intraduzível) e os desafia a aplicar esta descoberta ao problema do tráfego automóvel.

Mas o que me chamou a atenção foi a constatação de algo que me passou totalmente despercebido naquela época: as formigas não aumentam de velocidade para se ultrapassarem umas às outras! Estão a ver o Mundial de Fórmula de 2004? Foi muito parecido com aquilo que as formigas fazem no seu dia-a-dia.
Conclusão. Não há, e nunca haverá, por muito mau promotor e empreendedor que se seja, um gajo a organizar um Grande Prémio de Formigas.
"
E o quiosque, como é que vai?". Ainda bem que me faz essa pergunta. Tenho novidades sem interesse nenhum. Recebi a semana passada um novo expositor de pastilhas que me permite fazer novas experiências, que depois até poderão ser alongadas para jornais e revistas.
O expositor está virado para o cliente. Muito bem localizado, boas vistas, sem dúvida, ali mesmo à mão de semear e gamar. No 1º andar estão as novas Trident Senses de morango, um futuro best-seller (já agora, sai uma vénia ao senhor das Senses). Intocáveis. No rés-do-chão, uma fileira para 3 espécies de Trident clássicas. Nesta semana ganharam o lugar a Trident de mentol, a de frutos silvestres e a splash de pêssego. Começam com a embalagem cheia, tudo ao mesmo tempo. A última a esgotar desce de divisão e é transferida para o expositor secundário. Neste joga-se a 2ª divisão: a primeira a esgotar sobe ao expositor principal.
Não é tão entusiasmante como observar formigas, mas de momento é o que se pode arranjar, o Grande Prémio da Pastilha.