Após 9 meses de vida em comum, eu e o gato estamos quase a chegar a um ponto de ruptura. Aquilo que era um gatinho fofinho e mauzinho com 3 semanas de idade é agora um gato fofo e mau com 9 meses e 3 semanas de idade. Vacinado (32,75€), esterilizado (63,00€) e esfomeado (4,99€ por semana).
Acolhi o gato com um pé atrás. Por duas razões. Primeiro, porque um gato nunca foi o tipo de pessoa que me enchesse as medidas. Segundo, porque quando me foi apresentado atacou-me o pé em vez de me estender a mão. Ao mesmo tempo que o gatinho fofinho e mauzinho me agarrava o pé, tinha duas crianças agarradas às minhas pernas, implorando "por favooooooooooooor, pai, fica com o gatinho que é tão fofinho!!". Nove meses e três semanas depois, tenho duas crianças agarradas às minhas pernas, implorando "por favooooooooooooor, pai, tira o gato daqui!!". E o paizinho, que sou eu, pega no bicho, acompanha-o à cozinha e antes de lhe fechar a porta, faz-lhe o olhar "percebes porquê, são os teus dentes..." e o bicho retribui, baixando as orelhas como que a pedir clemência, o que deixa o paizinho ligeiramente comovido durante algumas décimas de segundo. Tirando aquela infelicidade em que o bicho se esqueceu de recolher a cauda para a cozinha (ou terei sido eu a fechar depressa de mais?), tudo o resto é pura rotina.
Gato, não recordo com precisão em que altura deixou de existir aquela cumplicidade entre nós. Diria que terá sido assim que te instalei lá em casa, 20 minutos depois de te conhecer. Ou quando saquei do cartão multibanco após a tua primeira ida ao veterinário. Mas estou certo que teres inutilizado para sempre a HP2360C pesou na quebra de confiança. Não duvides que apesar de todos os meus alertas, teres saltado inconscientemente para cima da prateleira da estante, arrastando a própria estante para o chão e decapitando uma linda mulatinha de porcelana, contrubuiu fortemente para me obrigares a gastar uma das tuas vidas. E que a tua tendência sem fim para espalhares pelugem pela casa fora, já para não falar da imbecilidade que é fazeres da banca da cozinha uma zona de caça, marca um ponto de não retorno na minha decisão de terminar a nossa relação.
Lamento por te ter julgado mais inteligente. Não foste lá com porrada nem com gritos nem com mimos. Lamento todo o fiambre que desperdicei contigo e aquela perna de frango esquecida na mesa, enquanto fui buscar uma jola ao frigorífico. Ao princípio não estranhei a tua obsessão pelas roupas de silicone das Polly Pocket da Maria, da forma como as deixavas na minha mão e eu as atirava para longe para as ires buscar. Sentia ali que eras o cão que eu nunca tinha tido, aliado ao facto de morderes tudo o que mexesse. Só te faltava ladrar. Mas isso não chega e o facto de morderes é no fundo incrivelmente irritante e decididamente não disfarça o teu ar felino. Também acho que nunca gostaste de mim. Revelas algum apreço quando te encho o prato de ração, apenas isso. Ou quando sabes que o fiambre passou o prazo de validade e está prestes a chegar até ti.
Não sei se te dê mais oportunidades, mas para já vamos dar um tempo. A varanda virada a oeste é toda tua, reza para que não chova.
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