Não sou menino para me lembrar com grande precisão do que sonho. Sei apenas que a tendência é para me lembrar com distinta clareza dos sonhos que incomodam. Os outros, os que correm bem, são embaciados, a preto e branco, sem banda sonora e muito pouco claros: nunca fica a certeza se eu e a Gwyneth Paltrow partilhámos os lençois ou se apenas frequentámos o mesmo bar. Como se não bastasse, no ar estabelece-se a desconfiança se era de facto Gwyneth Paltrow ou apenas a sexagenária do 3º esquerdo. Talvez seja isto que impeça que, mesmo nos dias em que Gwyneth Paltrow me chega aos lençois, a coisa vá para além de um breve enrolanço de adolescentes, inoportunamente interrompido pelo despertador ou pelo miar do gato da sexagenária do 3º esquerdo. Não é fácil viver com esta frustração, mas uma pessoa habitua-se, desde que não feche a pestana com grandes expectativas para o sonho que se avizinha.
Os sonhos que me incomodam são mais chatos. São mais chatos porque acima de tudo incomodam, como já tive oportunidade de dizer. E teimam em soltar-se da memória matinal, são os sonhos pega-monstros que se colam ao cérebro e moem um tipo para o resto do dia. Há um frequente, nao que seja repetitivo (a criatividade é um dom que se prolonga pela noite dentro), mas que obedece a um padrão, em que me vejo em grandes dificuldades perante uma razoável audiência. Numa das variações apareço num jogo de basket (desporto que pratiquei durante anos) e sou simplesmente incapaz de driblar a bola. Ela vai fugindo, fugindo, até que sai pela linha final, para desespero dos meus colegas de equipa. Noutra variação, durante um concerto, sou convidado para subir ao palco e tocar guitarra (no qual sou amador, mas o sonho já me aparecia antes de saber o que era um acorde), mas não sai qualquer som, e ainda bem porque tenho sempre a certeza que se saisse alguma coisa, o público não iria reagir muito bem. Há um outro em que não consigo registar as vendas pelo leitor de código de barras, os clientes cansam-se de esperar e vão-se embora. Não vão chateados, voltam no dia seguinte e acontece a mesma coisa, e assim sucessivamente até que acordo. Na última variação - e é uma entrada nova - estou no MasterChef, tenho à minha frente uma bancada cheia de ingredientes e não consigo fazer mais que um sandes de presunto, uma enorme sandes de presunto que ocupa toda a bancada. A sandes não chega a ser avaliada pelo juri, que está com mais vontade de me comer do que à gigantesca sandes de presunto. E acho que é tudo. Isto parece-me muito simples de decifrar. Agradeço que me resolvam a situação, principalmente aquela parte em que não me deixam fazer coisas bonitas com a Gwyneth Paltrow.
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