Sucedem-se, a um ritmo bastante interessante, as comunicações ao país, sejam do presidente da república, do primeiro ou do último ministro. Se de um lado chove, do outro lado troveja. Se um diz o que não vai acontecer, o outro dá instruções para que não aconteça
As comunicações ao país tornaram-se aborrecidas. São uma espécie de empate a zero entre os últimos classificados do campeonato distrital de Beja, com a diferença que antes da comunicação ao país já sabemos que vai continuar tudo a zero. As comunicações ao país banalizaram-se e não trazem nada de novo, nem no conteúdo nem na avaliação ao carácter de quem as comunica. A parte mais entusiasmante da comunicação ao país é o antes da própria comunicação ao país, em que se tenta adivinhar o que vai ser comunicado, para que lado o comunicador vai estar virado e quantas vezes a palavra “dificuldades” vai ser comunicada. Na verdade, a comunicação ao país já esteve mais longe de entrar como aposta na bet and win.
Muito bem. Como responsável pela comunicação de comunicações à clientela do quiosque, está chegada a hora de comunicar a seguinte comunicação.
Caros clientas e clientos,
Como é do conhecimento público, os quiosques e demais estabelecimentos comerciais atravessam algumas dificuldades. Sabemos que estas dificuldades se estendem a inúmeros sectores da nossa economia, mas vamos deixar que esses sectores emitam os seus próprios comunicados a reivindicar as suas próprias medidas em nome das suas próprias preocupações.
Pois bem, estas dificuldades estão inerentes ao facto de circular por aí uma crise financeira de proporções a tender para o assustadoras. Não vamos dizer que não há crise financeira. Parece mesmo que há, a julgar pelo número de comunicações ao país. Mas não vamos fazer disso a maior das tragédias nacionais.
Há menos dinheiro a cair nas vossas carteiras, compreendemos isso. Mas não vamos deixar de ir ao quiosque por causa de tal problemática, ok? Todos temos que fazer sacrifícios, e esta é altura para unirmos esforços e de fazermos opções sensatas. O que é uma bola de berlim ao lado de uma TV Guia? Um bilhete de cinema ao lado do Expresso? Uma gorjeta para o arrumador ao lado de uma Trident Fresh? E um fim-de-semana no Algarve ao lado da colecção completa de bombardeiros da segunda guerra mundial? Hum??? Não vamos castigar que não merece, pois não? O quiosque é pequenino e jeitosinho, todos concordam. O quiosque é acolhedor (quando chove, aquele super-toldo em forma de nave espacial dá um jeito enorme; quem nunca se abrigou lá de baixo que atire o primeiro Diário de Notícias). O quiosque não cheira mal (ok, às vezes cheira mas eu acho que já sei quem é o cão responsável). O quiosque até que é limpinho, apesar da manutenção ser feita por dois seres humanos do sexo masculino. O quiosque até já foi a vossa casa entregar o jornal (pronto, depois houve malta a abusar, a pedir o produto “para as 9:37 e já agora traga-me um saco que a dona Rosalina vai deixar para mim no restaurante que fica ali perto do talho”). O quiosque sempre manteve o vosso anonimato nas histórias que fizeram as delícias dos nossos leitores. Hum???
No fundo, o quiosque sabe que quanto menos vende, mais tem que devolver. Isso implica mais trabalho e nós não queremos ficar conhecidos como o ramo de actividade que quanto menos vende mais trabalho tem. Nós não queremos de forma alguma criar mais um posto de trabalho só porque está a sobrar mais tralha para devolver.
Portanto, voltamos a repetir, o lema é “unir esforços para não deixar de ir ao quiosque”, ou se preferirem “vamos primeiro tratar das dificuldades do senhor do quiosque e depois logo se vê”.
Boa noite.
O responsável pela comunicação de comunicações
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