Há um intervalo de tempo entre o momento da tomada de consciência que a casa está manifestamente desarrumada e o momento em que é tomada a decisão que é preciso fazer alguma coisa contra isso. A esse intervalo de tempo, que se pode prolongar durante semanas, dá-se o nome de "passividade perante o caos", e que passo a explicar. A "passividade perante o caos" tem início a partir do momento em que temos a certeza que há demasiadas coisas fora do sítio, mas que atingiram uma desordem tal que nem vale a pena pensar muito sobre o assunto, e muito menos agir em conformidade. Nesta altura limitamo-nos a desviar de objectos espalhados pelo chão, a empurrar outros para locais estrategicamente afastados da vista, ao mesmo tempo que pensamos, sem grande preocupações, em como foi possível chegar àquela situação, pela 238ª vez consecutiva. Há coisas que deviamos saber onde estão mas que não são tão importantes assim, e outras que estão ali mesmo à mão, que não servem para nada, mas que a inércia tão característica desta fase nos impede de lhe dar o destino mais certo. Até que chega o momento final da "passividade perante o caos", que andámos a evitar nos últimos tempos. Há coisas de que necessitamos urgentemente mas que alguém escondeu no início da fase, começamos a pisar objectos pontiagudos, há livros na cozinha e copos no escritório (embora pontualmente o inverso também se verifique) e o gato dá pulos de alegria. Então, num acesso de fúria controlada, descontrolamos a desarrumação e horas mais tarde, exaustos mas orgulhosos, pensamos que não vai haver 239ª vez.
Puro engano, claro. Sou um desarrumador compulsivo, a toda a hora. E arrumador compulsivo, pontualmente. Sem cura. A própria arrumação, apesar de parecer séria, é de uma desonestidade gritante. Todos os papéis desordenadamente espalhados na secretária passam a estar desordenadamente empilhados dentro de uma gaveta ou caixa, à espera de nova arrumação. Misturam-se contas do gás com post-it's de tarefas ultrapassadas com sucesso (na vã esperança de obter um pequeno impulso de satisfação anos mais tarde, como se isso fosse possível). Atropelam-se carregadores de telemóveis obsoletos por gravadores de cd's perdidos no tempo e usurpadores de espaço. Há fotos da puberdade (rio-me sempre que dou de caras com aquela do P. com um tomate de fora; sim, sou eu que fico com tudo) coladas a bilhetes de jogos basket sem resultado memorizado. Aqui guarda-se tudo, enquanto se aguarda o grande dia da arrumação final, que nunca há-de chegar.
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