A senhora não me gramava. Eu não gramava a senhora. Corrijo: eu não gramava a senhora, logo ela também não me gramava. Ela vinha, folheava a revista, olhava o preço, torcia-lhe o nariz, e quando o preço não a deixava torcer o nariz, torcia o nariz à própria revista: "Hmmmm... desta vez não levo, senhor...", como se alguma vez tivesse levado.
Reformulo. Eu até a gramava. Depois cansei-me de a gramar, porque ela torcia demasiado o nariz a revistas que não mereciam que lhe torcessem o nariz. Ela topou que eu já não a gramava, claro, quando comecei a torcer o nariz sempre que ouvia a conjugação de palavras "revista" + "deixe-me" + "ver". E a nossa relação comercial, nula, passou a pautar-se por trocas de torcidelas de nariz (sou sublime a torcer o nariz, diga-se).
Até ao dia em que a senhora precisou de mim. Chovia torrencialmente, ela folheava uma Maria ou Mariana ou uma Sandra Moda Croché. Sem ter para onde fugir e com o nariz mais torcido que o joelho do Mantorras, foi obrigada a ceder. "Senhor, não tem um guarda-chuva que me empreste?...", e engoliu em seco, comprometida pelos milhões de páginas passadas.
"Claro que tenho! Tem preferência pela cor?" (parêntesis aberto para justificar: faço colecção de guarda-chuvas esquecidos, de todas as cores e feitios).
Riu-se, sem torcer o nariz. Levou um azul e mandou Deus ajudar-me.
No dia seguinte devolveu o azul, não folheou a revista, não torceu o nariz e soltou finalmente as palavras "Dê-me a Mariana, senhor Pedro".
Hoje voltou tudo ao mesmo de sempre. Pelo menos até voltar a chover torrencialmente.
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