Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

Episódio 11

Por vezes sinto-me obrigado a desconfiar que tudo isto não passa de um super big brother, uma mega produção de apanhados que irá para o ar dentro em breve. De facto, as peças começam a encaixar. A forma entusiástica como literalmente me empurraram para o negócio, numa altura em que duvidava da sua viabilidade, mas que mesmo assim me fizeram avançar. O senhor que na falta do Expresso, levou o Jornal do Sexo. A velha que à força me queria comprar um saco de milho. O puto que se barricou dentro do quiosque, numa tentativa desesperada (e fracassada) de escapar a uns tabefes do pai. O dia em que a M., nos poucos minutos que me substituiu, despachou toda a remessa do Ocasião, pensando tratar-se de um jornal de anúncios gratuito. O travesti que levou a Teleculinária e a Futebolista (esta é mentira, mas é um sonho). O contingente da EDP que procurava luz e descobriu um porão.
Enfim, há aqui material mais que suficiente para um pack de 12 episódios de apanhados, em que o apanhado sou eu.

Agora é tarde. Assim de repente, relembro as vezes em que levei o dedo ao nariz (às vezes 2 dedos!), em que anulei comichões abaixo da cintura, em que persegui rabos com o olhar. Pergunto ao meu médico se tudo isto não passa da minha imaginação. Não diz que sim nem que não. Para ele, trata-se de um mecanismo de defesa, próprio das pessoas super inteligentes.

Portanto, passo a descrever o último episódio da série.

Ontem à noite fui apanhado pela bófia a assaltar o meu próprio quiosque.
Passavam uns minutos da hora tal da noite quando me dirigi ao quiosque. Entrei e ao mesmo tempo vejo um carro da bófia a passar e penso “se eles me toparam e forem uns sujeitos cumpridores dos seus deveres ainda vêm cá ver o que se passa, mas com certeza estão com pressa para ir a lado nenhum fazer ronha e fingiram que não me viram a iniciar o assalto ao meu próprio quiosque”.
Não estavam com pressa. Pararam o carro ao longe e um deles começou a caminhar na minha direcção, já estava eu de saída. Era pequenino. Ora, eu sem óculos sou uma tristeza de um cego. À medida que o homenzinho pequenino vestido de azul se foi aproximando foi ficando cada vez maior. Ficou a um passo de mim. Tinha quase 2 metros. Era enorme. Parecia-me um tipo extremamente atlético. Se eu resolvesse fugir era menino para me apanhar num ápice. Depois lembrei-me que o quiosque era meu, não havia necessidade de fugir, mas que era conveniente fazer esta barba e que não devia sair de casa depois de a miudagem andar a brincar com o meu cabelo. Felizmente o grandalhão fez primeiro as perguntas. Na realidade foi só uma “O senhor é o proprietário?”. “Sim”. “Ah, é que costuma estar aqui um indivíduo de cor”. “A fazer o quê?? A tentar assaltar o quiosque??”. “Não, lá dentro, mesmo”. “Ah, é o meu empregado”.
Portanto, estava eu de pasta na mão, de porta aberta, pronto para fugir, aliás, para ir embora, e gera-se ali um silêncio incómodo. Eu queira ir para casa, mas o grandalhão não arredava pé. Até que percebi. Ele esperava por uma prova em como eu era o proprietário. “Quer o meu BI?”. “Para já, não. Quero é que o senhor feche a porta do quiosque”.
publicado por ardinario às 16:13
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3 ardinarices:
De Bulhão Pato a 15 de Janeiro de 2009 às 19:40
Pelo sim, pelo não, julgo que o guarda bem podia ter dado três ou quatro bordoadas no meliante. Logo se veria mais tarde se tinha culpa ou não...
Boa história. Vai para o top-5. Não bate a do senhor que queria o Expresso - história essa, aliás, que já conto como se tivesse ocorrido comigo - mas vai tornar-se um clássico.
Abraço


De Beko a 16 de Janeiro de 2009 às 21:39
Muito boa a do expresso, isto de trabalhar num kioske só temos historias pra contar, eu proprio trabalho num kioske e comecei hoje a blogar sobre estas historias que vao acontecendo dia a dia.

Se quizeres dar uma olhada

www.bekosemsaida.blogspot.com


De zezinando a 22 de Janeiro de 2009 às 01:10
Já chorei a rir com a minha senhora!!! Estivemos a imaginar-te com o teu cabelo sem gel totalmente solto e livre.....


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