Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

Granda post, oh pá!

O texto que vão ler a seguir ( aviso já que é longo como tudo) foi aqui publicado há uma temporada atrás, mas mantém-se actual e serve como resposta a todos aqueles que pretendem abrir um quiosque de jornais e revistas e vivem num mar de dúvidas. Acreditem que, surpreendentemente ou não, o que não falta aí é malta a querer abrir um tasco destes, pelo menos a julgar pelo número de emails que recebo sobre o assunto. O texto que se segue, que apresenta algumas correcções/acrescentos, pretende assim responder a grande parte dessas dúvidas. Prometo colocar um link aqui ao lado direito assim que me apetecer.

Só mais uma coisa antes de soltar o bicho. Apesar de ser da minha autoria, não tenho pejo nenhum em afirmar que o pequeno grande naco de prosa aqui aí vem é do melhor que já tenho visto a circular pela net. É um daqueles textos que os grandes pensadores contemporâneos costumam descrever como “o post que eu desejava ter escrito, mas que jamais teria conseguido sequer imaginar, além de que não percebo nada de quiosques. Um monumento!”.
Então cá vai.


Há 3 factores que considero cruciais na avaliação das potencialidades de um bom quiosque: a localização, a localização e... a localização. Ok, além destes 3 factores, também penso que a localização seja importante.

Este quiosque já vinha montado com as peças todas e cheio de tralha até cima, logo não tive que pedir alvarás e outras tretas do género. Aqui não posso ajudar.

Não se iniba de oferecer ao quiosque uma bela esquina como poiso. Por alguma razão as senhoras da má vida ali se instalam: aproveitam a clientela de duas ruas perpendiculares. Nos tempos que correm, uma zona rodeada de comércio e/ou serviços é o mínimo que se pode exigir para abrir o negócio (agora já estou a falar outra vez de quiosques, esqueçam lá a prostituição por alguns momentos). Mantêm-se assim as mãos e a caixa ocupadas durante grande parte do dia, enquanto que se o tasco se limitar a servir meia-dúzia de edifícios residenciais, arrisca-se a que o seu potencial cliente saia de casa de manhã para trabalhar, apressado, e volte à noite, cansado, sem tempo e vagar para lhe deixar um olá e uns euros, a troco da imprensa do dia.

Se o quiosque for agente de euromilhões, totoloto, totobola e afins, óptimo. Há agentes que vivem só à custa disso. Se não for, tire o cavalinho da chuva. A livre concorrência não faz parte dos planos da Santa Casa da Misericórdia. Brincando um pouco aos JFKs, não perguntem o que a SCM pode fazer por vocês, mas sim o que vocês podem fazer pela SCM.
Bem, na verdade, não interessa nada. A resposta a ambas as perguntas é… “nada!”.

Faça contas. IVAs, IRSs, PCs, PECs são tudo despesas que geralmente chegam no pior momento. Prepare-se para deixar 200 euros no contabilista todos os meses. Um telefonema de 10 minutos custa-lhe 5 jornais. Use o e-mail. A luz é cara e a electricidade também.
Além daquele que já se encontra nos isqueiros, um quiosque não precisa de gás. Nem de água. Aliás, se o quiosque está na rua, a água que cai lá de cima vai ser um dos seus maiores inimigos.

Anotem isto na primeira linha da lista de desvantagens: quem se mete no negócio de jornais e revistas fica com a vida semi encravada. Tirando o dia 25 de Dezembro, todos os dias há jornais, pelo que fechar ao Domingo não será uma ideia brilhante, e muito menos encerrar o estabelecimento durante 15 dias para poder gozar aquelas merecidas férias. Entregar o comando das operações ao funcionário, por muito competente que ele seja, é meio caminho andado para ________________.

Perder um cliente é muito fácil, e não será necessário grande esforço para o conseguir. Difícil é ganhar clientes. O preço dos jornais está marcado na capa e não varia da Rua da Alegria para a Travessa de Camões, o que significa que vender Records a 50 cêntimos não é propriamente um brilhante golpe de marketing.

Por muita vontade que tenha, evite ao máximo expressões como “Xau, palhaço” ou “Lá vem este melga...”. Pelo menos em voz alta. O oposto também deve ser evitado. Desejar boas festas ao cliente fica bem, mas fazer-lhe festas na cara depois de uma venda acima dos 20 Euros dá mau aspecto e pode ser mal interpretado. Deixe de lado a máxima “O cliente tem sempre razão” e aja com “Em princípio, o cliente tem sempre razão”.

Estabeleça uma boa relação com os seus concorrentes. Mais tarde ou mais cedo vai precisar deles. E eles de si. Acordos de 10% de desconto nas vendas entre quiosques são perfeitamente normais.

Se tem mais de 60 anos, esqueça este negócio. Os volumes de jornais e revistas são pesados como burro e o mais certo é ganhar uma mialgia de esforço ao 3º dia. Se tem entre 40 e 60 e o Benfica ganhou ao Manchester United no dia anterior, num jogo épico e inesquecível, peça ajuda ao vizinho para carregar os 100 Records e Bolas que lhe vão chegar.

Contar, apontar, amarrar, transportar, devolver e conferir as sobras é um processo semanal, duro e não contribui em nada para o seu intelecto. Mas alguém vai ter que o fazer.

Para os mais distraídos, neste momento trabalho com duas distribuidoras de jornais e revistas – a Asco e a Chupista. (... pausa...). Estão a fazer-me sinal lá atrás... Como é que é?? Só existem estas duas distribuidoras? Não posso escolher outras? Ok. Então corrijo. Sou obrigado a trabalhar com as duas únicas distribuidoras no mercado... Ãh? E não posso optar por uma delas?... Ah, distribuem publicações diferentes... Ok. Então reforço. Neste negócio, se não trabalhares com estas duas distribuidoras, o melhor é mudar de ramo.

A Chupista é o Cavaco das distribuidoras: não tem dúvidas e raramente se engana. Quando se engana, corrige rapidamente. Sendo a distribuidora de grande parte das colecções, têm enormes dificuldades em fazer cumprir a remessa de algumas delas. Se há 4 clientes a fazer uma determinada colecção, geralmente só nos chegam 3 exemplares. Mesmo após alguns alertas, vão passar algumas semanas até que mandem as quantidades certas, e quando finalmente o fazem já alguém desistiu da colecção.
Ao contrário do que se pensa, com a Chupista a venda à consignação é ligeiramente desvirtuada. Uma boa fatia das publicações é paga por inteiro antes de ser devolvida. É perfeitamente normal receber 4 exemplares do Autocatálogo 2004 em Dezembro de 2006, em más condições, a ser pago em Janeiro de 2007 e para ser devolvido (e creditado) em Março do mesmo ano.
Conferir a factura semanal da Chupista, digna do pior software do início dos anos 80, é um exercício chato, moroso e complicado. A boa notícia é que raramente se enganam.

A Asco é o pesadelo de qualquer quiosque. Se perguntarem a qualquer proprietário quais os principais inimigos da sua facturação, 90% responderá sem hesitar: o mau tempo e a Asco. Faltas nas remessas e enormes diferenças no crédito das sobras, a um ritmo alucinante, podem deitar abaixo o negócio em poucos meses. Diferenças de créditos de 100 Euros semanais são normais, pelo que há que fazer a reclamação, esperar o crédito na factura seguinte, conferir tudo novamente, rereclamar o que não foi creditado e, com um bocado de sorte e paciência, esperar pela semana seguinte, e assim sucessivamente, até uma das partes ceder.

Se tem dúvidas para avançar, leia isto.
Em que outro tipo de negócio se recebem produtos na loja, todos diferentes em cada dia que passa? O DN de hoje vai ser sempre diferente do DN de ontem, o Record tem aquela capacidade inata de nos oferecer capas fantásticas, o 24 Horas não pára de nos surpreender com novos e impensáveis brindes, e há sempre pessoal de grande criatividade a escrever no diário da Maria. Depois... há o Público de 6ª feira e de Sábado, a Computer Arts, a World Soccer, a Atlântico (se voltar), as newsmagazines, os títulos dos filmes porno, a capa da Maxman, o Courrier, a menina dos isqueiros e o suplemento de golfe do Expresso, que dá sempre jeito para embrulhar sobras.

Dizem que o futuro dos jornais está em risco. Por aqui nota-se pouco, mas tenho que ser honesto: não é o negócio do futuro, nem de longe nem de perto. Mais uma razão para ter a coisa bem localizada. Se não dá para os jornais, dá para outro ramo, a não ser que sofra de miopia crónica na visão para o negócio.

Não se esqueça. Os clientes mais velhotes, aqueles que compram o seu jornal religiosamente e que tremem sempre que alguém lhe sopra ao ouvido a palavra Internet, acabam por bater a bota, mais cedo ou mais tarde. E não pense que vem um jovem a correr para substituir o falecido. Bem pode esperar sentado.
Depositar jornais na campa do senhor, em vez de flores, também não resolve o problema.

Esta parte também não tem grande piada.
Margens de lucro: 15% para jornais, 20% para revistas, 12% para produtos associados e colecções, 5%-6% para tabaco, 20% para cartões telefónicos.

Se já avançou, há uma regra de ouro que deve seguir à risca, e que provavelmente poderá adoptar a qualquer outro ramo: se tem tempo para ler a Nova Gente de uma ponta à outra, sem que passe um cliente, está na altura de pendurar o letreiro “vende-se”.
publicado por ardinario às 15:34
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