Quarta-feira, 5 de Setembro de 2007

Queres levar um selo?

-Quero levar o 24 Horas. E quero também levar um selo.
-Quer levar um selo??
-Exacto. Quero levar um selo.
-Quer levar um selo porquê? Apenas por querer levar o 24 Horas? Oh homem, esteja descansado. Aqui ninguém lhe bate por levar este ou aquele jornal. A menos que fuja sem o pagar...
-Precisava mesmo de levar um selo...


A atitude do homem começava a enervar-me e atrás dele já se formava uma fila digna de ser participada à TSF. Decidi então fazer-lhe a vontade. Fechei os olhos, puxei a mão direita atrás... e... peguei no dossier e retirei cuidadosamente um selo de 30 cêntimos.

A situação acima é fictícia, mas serve perfeitamente para demonstrar que um selo de correio e um selo nos queixos poderão estar directamente relacionados muito para além do substantivo. Eu explico.

Tudo começou há 4 mil milhões de anos atrás, com uma grande explosão a que todos chmama big bang. Sensivelmente 4 mil milhões depois alguém se lembrou que para enviar uma mensagem de um local para outro teria que se pagar uma taxa. Não duvido da justiça da aplicação dessa taxa, até porque há que pagar ao homem que entrega as mensagens. O que eu ponho em causa é que seja necessário cuspir para um pedaço de papel picotado para validar essa taxa. E acima de tudo, que seja necessária a existência de agentes que vendam o tal pedaço de papel picotado. É aqui que eu entro. No “Clube dos Agentes que Vendem Pedaços de Papel Picotado, Cuja Margem de Lucro Anda nos 5% a Unidade Vendida”.

Já vamos ao selo nos queixos. Para já gostava de vos falar do selo de 30 cêntimos. Se as contas não me falham, sempre que vendo um selo de 30 cêntimos obtenho um lucro de 0,015€. É tanto ou tão pouco que nem o consigo escrever por extenso.
Uma folha de 100 selos dá-me um lucro astronómico de 1,50€. Mais. Um em cada trinta estraga-se porque aquilo foi feito para pessoal com níveis de habilidade manual extraterrestres ou para quem sacou pelo menos um 18 na cadeira de “Rasganços de Picotanço II”. Ora, como é sabido, eu e o Olegário gastamos metade da nossa habilidade manual a amarrar diariamente enormes volumes de jornais e outra metade a cumprimentar o pessoal que nos compra os jornais, evitando assim volumes ainda maiores. Feitas as contas, os 3 selos assassinados com estas mãozinhas retiram 0,855€ ao lucro dos 100 selos, e passamos a obter a módica quantia de 0,645€ de lucro. 0,20€ ficam no parquímetro junto aos correios e o resto evapora-se em gasolina.
Só para verificarem o ridículo da coisa, preciso de vender 200 selos de 30 cêntimos para conseguir comprar uma única acção do Benfica. E deter uma única acção do Benfica equivale, mais coisa menos coisa, a ser responsável pela escolha da cor das meias do treinador de guarda-redes das camadas jovens do clube. Uma loucura!

(estou embalado, alguém que me agarre)

Penso que posso concluir que a venda do selo, além de não dar lucro... dá prejuízo, uma vez que ainda não contabilizei o tempo que gasto nas estações de correio (sim, já experimentei várias e confirmo que o lucro não passa mesmo dos 5%). Tempo é dinheiro, e por vezes a coisa pode alongar-se para lá dos 15 minutos, enquanto o velho da bengala levanta os certificados de aforro ou a funcionária da caixa 5 tenta estabelecer um diálogo com uma ucraniana.

Aviar um simples selo é um processo demorado e ao mesmo tempo arriscado, além de que me faz perder dinheiro. Não admira pois que um dia destes resolva fazer justiça com as próprios mãos, e ofereça um selo a quem de facto me pedir um.
publicado por ardinario às 23:23
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3 ardinarices:
De Anónimo a 6 de Setembro de 2007 às 14:14
Vai a pé aos correios que não é longe...


De ardinario a 6 de Setembro de 2007 às 14:57
Tempo é dinheiro. O meu agente avalia-me em 3,25€/hora, pelo que uma ida aos correios a pé não compensa.


De Anónimo a 10 de Setembro de 2007 às 11:12
De carro não só não ganhas tempo como ainda perdes dinheiro.


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