Segunda-feira, 5 de Setembro de 2011

3a8m

Ccomeço a ficar sem paciência para os elogios à minha paciência. A fama ultrapassou fronteiras, andou a passear pelo mundo e chegou finalmente aos ouvidos do mais novo. As consequências têm sido devastadoras. À semelhança do que a irmã passou, vive neste momento a fase em que obriga o pai a fazer de figurante nas suas brincadeiras (muito infantis, por sinal), chegando a usar a chantagem quando confrontado com a possibilidade de brincar sozinho: "ou brincas comigo ou és mau e vou dizer às pessoas que já vi a tua pilinha". Sinto-me obrigado a ceder perante tamanha ameaça e vou à luta.

Na brincadeira "muito infantil, por sinal" tenho que pegar num boneco ou num carro ou em qualquer outro objecto que esteja à mão, e seguir as instruções para os movimentos e falas. No fundo, o puto é o realizador, produtor, argumentista e actor principal de um filme e eu sou um actor secundário, muuuuuuito secundário, mas imprescindível para o sucesso de bilheteira. Ele é o super-herói e eu sou o mau, que leva sempre porrada, não tem super-poderes e sofre de paralisia quase total. Vou para o filme sem motivação e as minhas deixas são bastante limitadas para o currículo que apresento, mas fundamentais para o super-herói brilhar. Ele diz "agora ficas aí parado enquanto eu te dou murros e no fim dizes ai ai ai ai!!". E eu fico com o boneco mau, imóvel, enquanto levo com murros e no fim digo "ai ai ai ai!!". Depois acaba o filme e começa outro em que sou o cão filho e ele é o cão pai. O cão pai está incumbido de dar comida ao cão filho e o cão pai pergunta-me "o que queres comer, filho?". E eu respondo "quero um croquete de sardinha e amêndoas". E ele grita "PAIIIIIIIIIII!!! Tu não falas!!! És um cão!!!! Só fazes ão ão ão ão!!!". E eu faço "ão ão ão ão" e ele traz-me sopa de cenoura. E ameaça-me " se não comes tudo, vais de castigo para o teu quarto!" e eu faço um "ão ão ão ão" muito comovente, capaz de fazer chorar até o ministro das finanças enquanto sobe impostos. Como a sopa toda e no fim, distraído, digo "muito boa!!!" e ele chateia-se porque eu não ladrei e volta tudo ao início. Às vezes também faço de carro. Geralmente o carro que me é atribuido não tem rodas, e se tem, não pode entrar em grandes aventuras. O carro dele é lindo e robusto, voa e quando bate no meu, fica imóvel, e sou obrigado a fazer a minha carripana entrar em despiste e simular um acidente horrível. Esta é a minha brincadeira preferida porque só tenho que fazer "vrum vrum puuuuuuuuuuuuuuubas!!!!", não sou humilhado com cargas de porrada e não tenho que ladrar.

publicado por ardinario às 12:14
link do post | comentar | favorito
1 ardinarice:
De G.I.Jane a 10 de Outubro de 2011 às 23:16
Muito bom! Quero convites para a próxima estreia...


Comentar post

.ardinario

RSS

.Vieram cá parar

.posts recentes

. A ORLANDA NÃO PERCEBE

. O PERFUME QUE ERA MEU

. O 11 DE SETEMBRO DOS QUIO...

. 3000 METROS OBSTÁCULOS

. Abra-se o livro!

. A vida dá muitas voltas

. À atenção dos accionistas...

. QUIOSQUE QUE LADRA NÃO MO...

. Última hora!

. O CURSO DE LÍNGUAS E O RO...

.arquivos

. Janeiro 2015

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Março 2013

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Setembro 2010

. Julho 2010

. Maio 2010

. Fevereiro 2010

. Dezembro 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

.links